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A supremacia política e económica chinesa no contexto da pandemia - Ricardo Rodrigues



Ao longo deste último ano, a pandemia tem afetado de alguma maneira todos os países que integram a comunidade internacional, tendencialmente de forma negativa, quer seja em matéria económica, social ou política. Existe, no entanto, uma exceção flagrante a esta regra: a China.

Apesar de ter sido o ponto de partida da propagação da Covid-19, a China apresentou um crescimento positivo em 2020, em termos económicos e políticos, em grande parte resultante da conjuntura pandémica atual.
É evidente que muitos estados/indivíduos responsabilizam a China pela atual crise gerada pela pandemia em diversos países, quer seja por ter sido o ‘’epicentro’’ da pandemia ou pelo facto de ter feito um controlo rigoroso da informação relativa ao verdadeiro estado da pandemia no seu contexto doméstico, levando a uma maior surpresa para os governos externos quando se observou a primeira explosão da pandemia. Estes fatores poderiam levar a crer que as relações externas da China seriam negativamente afetadas, quando na realidade se tem observado mais o oposto. O próprio vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da China afirma que ‘’as relações da China com a maioria dos outros países melhoraram com a pandemia’’ e que ‘’poucos países foram contra a maré da História e lançaram insanamente uma campanha de difamação contra a China, tendo fabricado rumores e disseminado o vírus político, através de todos os meios possíveis", confirmando a posição de inocência do Governo Chinês no desenrolar da pandemia e a solidez da continuidade dos seus relacionamentos a nível internacional.

Apesar da perceção negativa que estados ou indivíduos possam ter do Governo Chinês neste contexto da pandemia, a própria atividade económica da china tem beneficiado enormemente com a pandemia, pois a China é um dos principais produtores de bens essenciais no contexto pandémico, nomeadamente de álcool e de máscaras, cujo uso passou a ser obrigatório em inúmeras situações sociais e de trabalho.
Assim, a atividade comercial chinesa observou um saudável crescimento, independentemente da sua ‘’fama’’, e tem aumentado e consolidado o seu poder a nível internacional, tanto em soft-power (através das relações comerciais estabelecidas pela necessidade que os estados têm de produtos cuja produção é feita maioritariamente na China) como em hard-power (através do aumento dos próprios recursos materiais cuja magnitude é ainda mais significativa relativamente ao decrescimento observado nas restantes potências). As exportações chinesas aumentaram 4% em 2020 e as importações diminuíram 0,7%, resultando num excedente comercial 26,7% superior ao observado em 2019. Ao contrário das outras grandes potências, a China acabou o ano de 2020 com um crescimento de 2,3% no seu PIB. Embora seja um crescimento baixo quando comparado com os níveis Chineses observados ao longo da última década, é um número excecional no panorama da crise atual, pois representa um crescimento, enquanto as potências concorrentes sofreram regressões na sua economia (Indonésia -2,2%; EUA -3,6%; Rússia -4%).
É previsto que a economia chinesa ultrapasse a norte-americana e que torne a China na maior potência económica em 2028, cinco anos mais cedo do que anteriormente previsto, em larga medida devido ao impacto económico divergente da Covid-19, resultante das diferenças verificadas nas medidas de contenção da pandemia entre os EUA e a China. A China foi mais rápida e estrita no estabelecimento de confinamentos levando a uma estabilização mais acelerada e eficaz da propagação da pandemia e consequente redução do impacto da mesma no desenvolvimento económico Chinês, enquanto que nos Estados Unidos a implementação destas medidas tem sido fragmentada e inconsistente, levando a graves entraves ao funcionamento regular da atividade económica no país.

Outro fator que virá aumentar a influência política da China no contexto internacional da pandemia é a politização da produção e distribuição da vacina chinesa contra a Covid-19. Ainda autorizada apenas para “uso de emergência” e apesar das acusações de ser mais fraca do que as equivalentes Russa e Norte-Americana devido às inconsistências nas taxas de eficácia observada em países diferentes, a vacina tem sido avidamente administrada à população chinesa por ordem do Governo Chinês. A China também anunciou a distribuição de vacinas para a Covid-19 a países em desenvolvimento, que têm vindo a apresentar extremas dificuldades financeiras e materiais para enfrentar a pandemia. Esta distribuição pretende ajudar estes estados a estancar o avanço da pandemia, mas constituirá também uma “dívida” que aumentará a influência chinesa sobre os mesmos.

É impossível então desassociar a pandemia da Covid-19 da supremacia internacional chinesa em 2021, pois a conjunção dos fatores económicos e sociais observados colocam a China confortavelmente no topo da ‘’cadeia alimentar’’ internacional, com uma clara hegemonia face às potências concorrentes. Uma posição em grande parte devida às crises criadas pela pandemia e às relações de dependência resultantes dessas mesmas crises, que levaram ao aumento das suas exportações para todo o mundo e permitiram um maior desenvolvimento da sua economia interna.


Fonte da imagem: Sandeep Adhwaryu | The Times of India

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